A cueca da vizinha... por Nuno Markl

Às vezes a gente não se apercebe das coisas pitorescas que temos para oferecer aos estrangeiros que nos visitam. Há aquelas óbvias, não é?

Ex-libris que fazemos questão de mostrar às pessoas que vêm de férias a Portugal. Por exemplo: Sintra. Ou... os Pastéis de Nata. Ou ainda... a volta de quilómetros e quilómetros de táxi, desde o aeroporto até chegar ao destino.

Enfim, todo um manancial de atracções que Portugal tem para o turista estrangeiro. Uma, no entanto, destaca-se de todas as outras. É uma coisa que faz parte das nossas vidas de tal maneira que nem a questionamos. Não questionamos a ideia ligeiramente absurda que está por trás disso.

Todos nós prezamos a nossa intimidade, certo? Eu serei sempre mal entendido se começar, de repente, no meio da rua, a fazer perguntas aos meus vizinhos sobre as cuecas deles, certo? "Então que cuecas tem hoje vestidas? Mostre-me as cuecas. Mostre lá as cuecas". Serei sempre mal entendido se eu disser isto à vizinhança.

Então, porque é que eles me mostram as cuecas deles sem eu lhes ter pedido nada? E, mais bizarro ainda, porque é que eu lhes mostro as minhas? Os meus

vizinhos estão perfeitamente a par dos vários padrões das minhas cuecas. Eu sei como são as deles, eles sabem como são as minhas. Porquê? Porque uma das

tradições nacionais é pendurar a roupa de fora da janela, não apenas para que ela seque... mas para que todo o mundo a fique a conhecer.

Se um dia nos faltar assunto de conversa, poderemos sempre avançar por aí - a nossa roupa interior.

- "Olá, vizinho, isto é que tem estado um tempo, hem?"

- "É verdade, sim senhor."

- "Que me diz das minhas cuecas brancas às pintas azuis?"

- "São esplêndidas. E o que me diz daquelas cuecas pretas de renda?"

- "Digo que a sua mulher deve ficar muito bem com elas."

- "Por acaso elas são minhas, vizinho."

- "Ah..."

Não somos o único povo que faz isto. Povos que de alguma forma têm a ver connosco fazem isto. Os latinos, os espanhóis e os italianos - essa malta também põe a roupa de fora da janela. Os americanos acham isto pitoresco. Os meus amigos da Califórnia, quando vieram cá pela primeira vez perguntaram-me se era normal ou se estávamos a fazer um protesto. Por acaso, fora do contexto, isto parece um protesto contra qualquer coisa. Uma pessoa que nunca tenha visto esta prática na vida, consegue imaginar os cidadãos portugueses a protestarem contra o Governo por qualquer razão e a dizerem: "EM PROTESTO CONTRA O AUMENTO DO CUSTO DE VIDA, VAMOS PRENDER AS NOSSAS CUECAS E AS NOSSAS MEIAS COM MOLAS DA ROUPA NOS NOSSOS ESTENDAIS!"

Eles julgavam que isto era uma coisa organizada.

Agora a sério, houve tempo em que eu achava isto uma boa ideia - isto de expor a nossa roupa à vizinhança. Eu achava isto quando era puto. Quando tinha para aí 10 anos. Porquê? Porque eu tinha cuecas da Guerra das Estrelas, e elas estarem expostas à janela era a única maneira do mundo saber que eu as tinha e de eu provocar fortes ataques de inveja nos filhos dos meus vizinhos. Uma vez que a sociedade não me permitia baixar as calças no meio da rua só para que o mundo visse que eu tinha o Chewbacca nas trousses.

Hoje eu acho isto de pendurar a roupa toda à janela uma coisa francamente embaraçosa. Porquê?

Porque... eu ainda tenho cuecas da Guerra das Estrelas. O enquadramento da coisa é que mudou. E hoje em dia, já não sou tão adepto da ideia dos filhos dos meus vizinhos a dizerem aos pais:

- "Os filhos do Markl têm cuecas da Guerra das Estrelas"

E os pais a dizerem-lhes:

- "O Markl não tem filhos, meu pequenito. As cuecas da Guerra das Estrelas são dele próprio."

- "Mas o Markl é pequenino?"

- "Não, filho - o Markl tem... problemas na cabeça. Daí aquele pijama da Hello Kitty."

- "Não será da mulher dele, papá?"

- "Não, pequenito - ele outro dia veio à janela depois de acordar... É dele. É dele."

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