Quem quer a bonequinha?


Por Lara Ingrid

Sol Português

Com os seus cabelos loirinhos compridos e aos caracóis, a bonequinha de pano pacientemente olhava para cada pessoa que entrava na loja. Um por um, todos a avistavam, directamente, olhos nos olhos. E...um por um... todos saíam e ninguém a salvava. Ninguém.

A princípio, os seus olhos esverdeados brilhavam. Com o passar dos anos, porém, cada dia perdia um pouco de brilho. Já fazia anos que ela residia na loja dos brinquedos. Anos que passava na mesma prateleira sem nunca poder, ao menos, ver a cor do sol por perto.

Ela, feita por mãos trémulas num país longínquo... por alguém que desconhece, foi feita com amor e carinho. Talvez até fosse feita para ser oferecida a uma neta que hoje é senhora e, na altura, um dia, não a quis.

É rara a semana em que ela não conhecia uma nova companheira de prateleira. Uma semana, era alguma boneca de porcelana. Outra, alguma "barbie" cheia de cor na cara. Às vezes até conhecia algum urso.

Porém, todas as semanas, a história repetia-se... todos quantos chegavam depois, saíam antes. E ela... ela sonhava conhecer alguma menina que conseguisse convencer os pais para a levarem para casa. Sonhava brincar com a tal menina dias sem conta. Acompanhá-la para todo o lado. As duas, inseparáveis. Sonhava ter aquele amor e carinho que julgou existir.

O preço, consoante os anos passavam, até estava em promoção. Nada resultava. Continuava na mesma prateleira. Agora, tinha sempre um bocado mais de pó do que no princípio. Vestida com um traje tradicional, ninguém a queria. E, no entanto, cativava sempre. Os olhares cruzavam-se com os seus. Mas... continuava sem rumo, sem destino. Preferiam sempre bonecas feitas numa fábrica, muitas feitas à pressa, que depois de uns meses já não eram como pareciam.

E ela, no seu canto, lá ia ficando. Ninguém ligava o costume original. O fabrico feito em perfeição talvez por alguém que nunca teve a ajuda de máquina alguma, de modernices, só as suas próprias mãos. A sua vista talvez já cansada... por isso nunca teve irmãs. Pois, ela já sabia que iria ser o último modelo. Sabia que não havia nenhuma loirinha parecida com ela.

Todos lhe passavam ao lado. E embora ela estivesse presente, ninguém a via... era como se estivesse ausente. Os ursos até iam num instante... só que muitos não sobreviviam a ataques de cachorros.

Os caracóis, ao longo dos tempos, perderam a definição de tantas vezes serem puxados. Puxavam-na para fora da prateleira para depois a deixarem. Ninguém queria ver o que estava nela. A beleza que ela ocupava. Iam mais para o que parecia melhor na altura.

E ela lá continuava sem perder a esperança de algum dia alguém a levar para casa. De sentir aquele abraço forte e poder finalmente adormecer nos braços de alguém.

Na realidade, existem algumas bonecas de pano. Bonecas das quais todos gostam... mas não sabem dar o devido valor. De ver realmente que todos têm sentimentos. Todos são magoados. Sentem... e merecem o mesmo respeito que dão...

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